Archive for the ‘Contos’ Category

Um dia eu tive uma idéia que achei engraçada. Eu sabia que a legislação não permite, que viagens no tempo só são permitidas para fins de observação, mas uma brincadeirinha de nada, que não ia fazer mal prá ninguém era irresistível.

Contei para uns amigos e eles riram até passar mal. Não precisamos nem voltar ao assunto, estava decidido. Marcamos uma viagem com a desculpa de “observarmos os métodos de plantio do final do século XX”. Ajustamos todos os controles e fomos até 1985, numa cidade campestre no centro dos Estados Unidos. Era final de tarde, a luz era um lusco fusco que não deixava ninguém, enxergar nada direito. Ativamos todos os sistemas anti-radar (os radares de 1985 eram bem fáceis de ludibriar) e ficamos esperando até aparecer alguém. Quando um rapaz, de aparentemente 20 anos apareceu, começamos a piscar as luzes. Quando ele nos notou, ficou paralizado. Mudamos as cores das luzes algumas vezes e apagamos tudo. A impressão que deu, para ele, é que tínhamos sumido. Ele correu feito um doido, foi muito engraçado.

Voltamos no dia seguinte, na esperança que ele também voltasse. Voltou e, melhor ainda, com uma máquina fotográfica, daquelas que nem em museu vemos mais. Fizemos nosso show de novo, nos deixamos ser fotografados e sumimos. Dessa vez, para valer. Aparecemos em um outro ponto, agora de noite, mas num lugar mais movimentado, uma pequena cidade. E em 1998. Cerca de 10 pessoas nos viram, fotografaram, algumas até filmaram. Fomos e voltamos algumas vezes no tempo. Em 1958 encontramos um rapaz pessoalmente. Dissemos que queríamos entender a civilização dele, pedimos para que ele nos levasse até seu líder. Ele saiu desenfreado correndo. Mas eu bem que avisei o pessoal que as fantasias iam assustar os antigos. Porque, claro, para não parecermos humanos, estávamos fantasiados de Gramonianos.

O bom de viajar no tempo é que voltamos para 2532 apenas dois minutos depois de partirmos para quase um mês de piadas em tempos remotos. Nossa primeira parada foi na locadora, buscando documentários antigos sobre Ufologia. Encontramos dois, em SMWF, e levamos para casa. Tinha dado certo. Descobrimos que nossa turma era responsável pelas primeiras aparições registradas de Extra-terrestres no planeta. A resposta para a maior pergunta de todos os tempos era só nossa. Por que os primeiros ETs não se comunicavam com os humanos? Para não sermos reconhecidos e presos, claro.

Copiamos os SMWFs e guardamos, como a prova maior de nossa brincadeira no tempo. 45 anos depois, nos encontramos de novo. Fomos descobertos. Julgados. Presos. Mas o que são 5 anos codificando alimentos, quando o mundo sabe que você foi o primeiro “extra-terrestre” que apareceu nesse planeta?

Só quem não gostou foram os Gramonianos, por causa das fantasias. Mas até aí, quem mandou eles chegarem na Terra pela Argentina?

Vieram me buscar. Conversam animadamente, como se eu ainda estivesse apagado. Não perceberam que estou consciente e pensando um jeito de, se não sair daqui, pelo menos levar alguns deles comigo. Mas foi difícil demais. A mulher quebrou minhas mãos e enquanto eu estava supostamente dopado, eles reduziram a fratura e engesaram. Foi muito difícil não gritar, não demonstrar dor.

Mas estar engessado pode ser uma vantagem. Poderia usar isso. Já que está tudo doendo mesmo, faço com que pelo menos sirva para alguma coisa. Me amarraram novamente a uma cadeira, mas dessa vez, estava preso pelo gesso, não pelos pulsos. Seria difícil, teria que ser muito rápido, mas era a única chance.

Contei mentalmente 5 minutos até ela entrar na sala. Esperei mais um pouco e fingi estar despertando. Olhei em volta e vi que estava no que parecia ser a mesma sala branca de antes, novamente impecável, sem nenhum sinal de que eu já havia sangrado muito ali mesmo, algum tempo antes. Tentei fingir um certo espanto, principalmente quando vi o gesso em minhas mãos, mas ela pareceu nem perceber ou se importar.

- Então?
- Então o quê?
- Quantos são?
- De novo essa história? Já disse que não sei do que você está falando.

Um tapa, forte, ardido, humilhante.

- Não vou perguntar de novo. Você já sabe como funciona.

Não respondi nada. Só comecei novamente a apanhar. Até que baixei a cabeça e comecei a chorar. Ela parou com a surra, então murmurei qualquer coisa. Sabia o que aconteceria em seguida. Ela precisava demais saber. Faria qualquer coisa. Cometeria um erro.

Ela ajoelhou na minha frente.

- O que você disse?

Murmurei qualquer coisa novamente.

Ela se aproximou um pouco mais, ficou perto o bastante para que eu pudesse tentar. Com um grito, mais de ódio que de dor, puxei com força os braços para trás, e minhas mãos, quebradas, saíram de dentro do gesso, firmemente preso à cadeira. Antes que ela pudesse esboçar qualquer reação, eu, cadeira e minhas mãos, quebradas, fomos parar sobre ela. Mesmo com os movimentos das mãos comprometidos, consegui colocá-las em volta de seu pescoço e, mesmo enquanto ela me batia, muito, comecei a sufocá-la. Quando ficou fraca, percebi que ela estava desfalecendo, enquanto ouvia atrás de mim a correria para chegarem até nós.

Quando ela parou de me bater, sussurrei ao seu ouvido:

- Somos 3, sua vaca nojenta. Só 3.

O último lampejo de compreensão de sua vida foi triste, como eu poderia esperar que fosse. Assim que entendeu, se entregou. Morreu, talvez de desgosto, mais do que sufocada. Assim que a soltei, tentei empurrar a cadeira e sair de cima daquela mulher detestável.

Vi, sentado de frente para a porta, quando os homens entraram, armas na mão, terror estampado no rosto. Um deles gritou alguma coisa, mas não entendi. Eu já tinha cumprido minha missão. Ela estava morta. Quando apontaram suas armas para mim, minha vida não passou diante dos meus olhos. Não vi nenhuma luz. Não senti nada. Meu último pensamento em vida foi de esperança, de que não tenha sido por nada.

Espero que tenha valido a pena.

- Ele não sabe.
- É claro que sabe, não seja ingênuo! – respondi.
- Ninguém aguenta tanta pancada sem falar o que seja para se livrar.
- Aguenta. Existem idealistas que acham que isso é bonito. Poético. São pessoas que acreditam que esse tipo de sofrimento farão com que sejam lembrados para sempre, os tornarão imortais. Bobagem! Nós sabemos que a história é contada pelos vencedores, não pelos vencidos.
- Mas Cam…
- NÂO – gritei – diga meu nome. Não aqui. Não confie nunca em paredes, vidros, portas. Ele pode ouvir. Esse pessoal é pior do que imaginamos.
- Tudo bem. Vejo que discutir é inútil.
- Fato. E assim que ele apagar, mande limpar a sala. Quando ele acordar, quero tudo impecável, como mágica. Certifique-se de que ele esteja inconsciente enquanto estiver fora da sala.

Saí da construção que encomendamos justamente para esse fim – obter informações – quando começava a anoitecer. Mas não despreocupada. Alguns de nós ainda acham que eles são tão ignorantes quanto querem nos fazer acreditar que são. Tinha medo que alguém pudesse ser ludibriado e ele, então, saberia quem somos e isso colocaria tudo a perder.

Em cinco anos nesse trabalho, aprendi que só uma combinação de fatores faz com que alguém treinado me dê as informações que quero. E um dos mais importantes é a desorientação. Dor, fome, sede, tudo é suportável, desde que você acredite que é parta de um plano maior. Mas desorientação te trai. Ela faz com que você fale o que sabe, mesmo sem querer, desde que faça com que sua mente volte a sentir que tem algum controle na situação.

Ele sabe porque está lá, ele sabe o que quero saber, ele sabe que está no controle. Mas não sabe onde está, não sabe há quanto tempo e não sabe como foi parar lá. Também não sabe o tamanho do lugar, deve pensar que só temos uma pequena sala branca. E mais importante: ele não sabe que não está sozinho.

Enquanto dirigia para casa, apenas um pensamento na minha cabeça: quanto tempo demorarei para conseguir as informações. Talvez devesse fazer várias sessões, deixando-o inconsciente, limpando a sala, voltando com se estivéssemos em outro dia, fazendo com que ele pense que vários dias se passaram. Em uma semana, poderia fazer com que ele pense que já se passaram alguns meses. E em alguns meses, planos são desfeitos, pessoas são mortas, idéias desaparecem. E é isso que ele deveria acreditar.

- E aí? O cara apagou?
- Total. Não viu a surra que levou? Horas apanhando. Cara, eu entregava até a minha mãe. A mulher bate sem dó.
- Mulher… Desde quando aquilo é mulher? Levanta o cara. Vamos colocar numa solitária. Mesmo que acorde, vai estar escuro que nem aqui, nem vai se ligar que saiu.

Eu ouvia, mas não mostrava nenhuma reação. Eles não podiam desconfiar que eu estava consciente. Mas os dois falavam tranquilamente, quase como se eu estivesse morto. E eu estava longe disso. Minutos antes, tinha ouvido a mulher que passou o dia comigo gritando “NÃO”. Não o quê?

Pela conversa dos dois, eu deveria achar que estava sempre no mesmo lugar. Isso é interessante. Entendo a estratégia. Mas como sair daqui?

Me colocaram em um tipo de maca. Pelo som dos sapatos, contei 152 passos de onde estava até a solitária que me colocaram. O lugar é grande. Tem mais gente aqui comigo. Será que falaram alguma coisa? Ela disse que me entregaram, quantos mais teriam sido descobertos? Mesmo assim, eles ainda não sabiam se tinham todos. Não sabiam nosso tamanho.

Tive que fazer um esforço sobre humano para não sorrir, quando naquele momento, entendi: “Ainda não sabem em quantos somos!”

Abri os olhos devagar, para suportar a dor causada pela luz. Como todo resto do pequeno quarto que descobri que estava, ela era muito branca, muito fria. No quarto, só eu, amarrado firmemente a uma pequena, mas sólida, cadeira de madeira. Não tinha janelas, não tinha cheiro, não tinha sons. Eu vestia apenas uma bermuda velha, a que sempre uso para dormir.

Ouvi uma porta fechando atrás de mim. Não ouvi nada, a não ser o clique da fechadura. Tentei me virar, mas logo ela estava na minha frente. Morena, magra, bonita, cabelos presos em um longo rabo de cavalo, trajando um jaleco, também branco.

- Onde eu estou? – perguntei.
- Esta é a menor das suas preocupações. A pergunta correta é: porque você está aqui?
- E por que estou aqui?
- Respostas. Você as tem, eu as quero.
- Não entendi…
- Quantos são?
- O quê?
- Quantos são?
- Não estou enten…

A dor foi tão forte que nem consegui gritar. Um chute preciso, coisa de quem sabe o que faz, e a unha de meu dedão levantou. Antes de pensar em algo, veio o pisão no pé, virando a unha para trás e causando uma dor ainda maior. O branco da sala já não era mais tão branco. O vermelho do meu sangue já tingia um pedaço do chão. Apesar disso, o tom do voz não se alterou?

- Quantos são? – disse, enquanto tirava um pequeno frasco do bolso.
- Eu não sei, não sei quantos o quê, não sei do que está falando.
- Quantos são? – abaixou e despejou um pouco do conteúdo do frasco em meu pé. A dor, lancitante, começou a diminuir.
- Olha, você deve estar me confundindo com alguém. Eu não sei do que você está falando.

Dessa vez foi a surpresa, e não a dor, que me impediu de gritar. O chute foi tão forte que comecei a desconfiar que ela não era uma mulher, mas um robô. Bem abaixo do meu olho esquerdo, com precisão. Mais uma vez, o branco foi manchado, pois cuspi um bom tanto de sangue. E sua voz, inalterada, insistia.

- Quantos são?
- Doze!

Dor.

- Vinte e cinco!

Dor.

- QUARENTA, PORRA!!!!

Mais dor.

E assim foi. Não sei quanto tempo, até eu sentir que ia desmaiar. Então ela tira o frasco do bolso e fica atrás de mim. Enquanto fala comigo, vai passando o conteúdo do frasco nas partes que ela surrou. A dor vai diminuindo, mas percebe-se que é passageiro

- Olha, ninguém vai aliviar para você. Te entregaram mesmo antes de eu insistir. Ninguém se preocupou com você, não se preocupe com eles. Não existe mais heroísmo no mundo, não adianta achar que você será lembrado como o cara que resistiu a tudo, que não entregou ninguém. Ninguém vai lembrar de você, nem como traidor e nem como mártir. Use isso a seu favor.

A voz era doce, quase maternal. Ainda sob efeito das pancadas, parecia quase se importar comigo.

- Está melhor? Está doendo menos? Entenda, eu posso fazer doer, e posso fazer parar. Sem respostas, dor. Respostas, sem dor. É simples. Em cinco minutos você pode sair daqui e ir para casa. Então, seja esperto, não tente bancar o herói. Me diga: Quantos são?

- Por favor – comecei, com a voz que consegui arrumar – eu não quero ser herói, nem mártir, nem coisa nenhuma. Eu falo o que você quiser, de quem você quiser, mas você tem que me dizer do que está falando. Eu não sei quantos o quê você quer que eu te diga quantos são, mas se me dizer e eu souber, eu falo sim.

De trás de mim, onde estava, puxou com força minhas mãos para trás. Todos os dedos quebrados de uma vez só fez com que eu gritasse sim, com muita força. Bobagem. Pude ver que ela ficou muito feliz. Já estava pensando no que responder quando me perguntasse de novo, mas ela não perguntou nada. Apenas repetiu o movimento, agora na outra mão. A dor era insuportável, agora. Achei que iria desmaiar, mas um novo frasco foi agitado em frente ao meu nariz e me deixou desperto como eu nunca quis estar.

Sem pressa, ela focou os esforços em partes do corpo que causam mais e mais dor. Rins, cabeça, joelhos, virilha. O quarto e as roupas brancas dela já eram vermelhos. Meu vermelho. Quando achei que ia morrer, ela parou. Ouvi o clique na maçaneta da porta e sua voz, calma:

- Ainda não terminamos nossa conversa. E ela só termina quando você me dizer o que quero saber.

Fechou a porta com suavidade e então, todo o branco sumiu, numa escuridão que parecia não ter fim.

Drica diz:

Quando podemos marcar?
É hoje!!! diz:
Pode ser na terça?
Drica diz:
Marcado!
É hoje!!! diz:
Ok.
Drica diz:
Um beijo.

Carlos, que estava usando um nick estranho (É hoje!!!), se referindo a uma balada marcada para mais tarde, levantou e foi tomar um café. Por um descuido, deixou a janela com a conversa aberta. Mário, seu colega na área de vendas, que não tinha nenhuma “Drica” no messenger, resolveu fazer uma piada. Quando viu a janela aberta, leu a conversa e escreveu mais uma frase. Para a coisa ficar ainda mais engraçada, isso para ele, claro, fechou a janela, para que Carlos não soubesse o que tinha acontecido.

Adriana, a diretora financeira, estava terminando uma ligação. Tinha acabado de combinar uma reunião com Carlos, de vendas, pelo messenger. Desligou o telefone e quando foi fechar a janela com a conversa, chegou mais uma mensagem.

É hoje!!! diz:
Só se for na sua boca!

Adriana ficou sem respiração. E agora? Corto, dou uma bronca, ou só porque eu sou diretora não posso ser cantada? “Esse pessoal de vendas é abusado, mesmo… Mas tem que ser, faz parte do perfil deles…” E continuou pensando, a tarde toda, se ele estava brincando ou se tinha mesmo um interesse. Afinal, apesar de madura, ela não era de se jogar fora. Malhava todo dia, era vaidosa, se produzia… Solteira sim, mas por opção.

Encontrou com Carlos mais umas duas vezes antes da reunião de terça feira. Mal se falaram. Ele, como sempre, educado, brincalhão, mas dava os sinais. “Oi Chefa! Não esqueça de terça, hein?”… Isso só podia ser um sinal. “Adriana, podemos antecipar um pouco o horário?”. “Está ansioso!”, ela pensou. Mas manteve o horário.

Terça feira. Reunião com Carlos. Será que ele iria mesmo tomar a iniciativa? Mas nada indicava isso. Com uma postura extremamente profissional, Carlos conduzia a reunião sem brechas para brincadeiras. “Está tentando me impressionar…”, ela pensou. No final, definiram o plano de metas para a área de vendas, fecharam o resultado do ano anterior e quando achou que eles estavam terminando, Carlos diz: “Bom, agora só falta uma coisa prá ficar perfeito…”. Adriana não se segurou mais. Levantou, foi até Carlos e beijou longamente a sua boca. E ele, que ia falar que faltava um cafézinho… Começaram a sair juntos. Não avisaram ninguém do escritório. Acharam melhor manter segredo por um tempo. Adriana, vaidosa, não queria que soubessem que ela estava saindo com um gerentinho… Um dia, confessa para ele: “Te indiquei para diretor comercial. Fiz seu filme! 90% de chance de rolar!”. E rolou!

Agora sim. Perderam a vergonha. Começaram a sair sempre e já não escondiam mais. Afinal, agora eram do mesmo nível, não deviam nada para ninguém… Mas continuavam conversando pelo messenger.

Drica diz:
Carlos, vamos embora mais cedo hoje? ;o)
Só diretoria! diz:
Bem que eu queria, mas acho que não vou poder.
Drica diz:
Pq? Algum problema?
Só diretoria! diz:
Mais ou menos… Vai ter que rolar uma conversa difícil aqui.
Drica diz:
Tudo bem. Alguma coisa que eu possa ajudar?
Só diretoria! diz:
Não… Vou demitir o Mário!

Heaven

Ele entrou e olhou em volta, procurando algum conhecido. Nunca foi de se acanhar, mas era sempre mais fácil começar uma conversa com um conhecido, para depois expandir sua roda de amizades.

A tática era simples. Infalível. Começava sério. Estava sempre bem informado sobre algum assunto importante. Não deixava de mostrar sua opinião, não se intimidava. Conforme a conversa ia evoluindo, ia identificando os pontos “vulneráveis” de seu interlocutor. O time que torcia, a tendência política, o tipo de mulher que gostava, sua marca preferida de cerveja… Em alguns minutos, era íntimo. Parecia que conhecia, e era conhecido, há muitos anos.A seriedade ia rareando. Uma piada aqui, uma tirada de sarro ali, o gelo ia sendo quebrado e o grau de intimidade ia aumentando exponencialmente. As risadas, a cerveja gelada… Amigos. De longa data. Apesar de serem apresentados agora mesmo.

Agora não era mais parte de uma rodinha de amigos. Era parte de uma grande festa. Já era a figura mais conhecida da imensa sala em que se encontrava. Percebia alguma coisa diferente. Não sabia se era o clima, se eram as pessoas, mas quando a preocupação passou correndo por seus olhos, alguém lhe deu um pandeiro, seu melhor amigo, cúmplice, aliado. A preocupação sumiu e o samba, paixão de uma vida, apareceu.

A cantoria voou longe, por horas, dias, meses que pareceram minutos. E vai durar para sempre.

Enquanto não nos encontramos para cantar juntos, lembro com carinho das cantorias passadas…

E choro.

Então, Deus apareceu para Angela.

Angela estava prestes a se deitar. Estava deprimida. Tinha brigado com o namorado, estava com problemas no emprego e tinha certeza de que começava a ficar resfriada. Quando isso acontece, geralmente as pessoas exageram nas reclamações. Que merda de vida, de dia do cão, inferno, só acontece comigo, será que é provação?

O sono não vem. Os problemas, sempre eles, insistem em nos assombrar, especialmente quando sabemos que não pensar neles e descansar um pouco a cabeça pode ser o primeiro passo para começar a resolvê-los. Não era diferente com Angela naquela noite quente de verão. O calor e o pensamento insistindo em ir para o lado errado do cérebro (aquele que quer atormentar, e não o que quer descansar) impediam qualquer vestígio de sono em seu corpo.

Começou a usar vários artifícios, que aprendeu com amigos, parentes, TV, para tentar dormir. Desde o tradicional contar carneirinhos (sempre parava no segundo ou terceiro) até se imaginar fazendo alguma coisa impossível para ela, como voar, ou que nunca teria coragem de fazer, como desfilar nua em Copacabana, domingo de tarde. Nada funcionava. Resolveu, então, fazer algo que há muito não fazia, recurso maior, usado apenas nos casos de extremo desespero. Começou a rezar.

Mas mesmo rezar estava complicado. De repente, as orações, aprendidas longos anos atrás, com sua avó, com sua mãe e nas aulas de catecismo de sábado a tarde, começaram a perder o foco. Foram, lentamente, se transformando em uma conversa com Deus. Uma boa discussão, seria melhor dizer. Angela começou a botar-Lhe toda a culpa por seu sofrimento. Por que, ela perguntava, por que eu? É castigo? Provação? O que eu Te fiz? Mas Ele continuava calado. Angela começou a chorar copiosamente, sozinha em sua casa, no escuro de seu quarto. Lágrimas se misturavam ao suor e, quanto mais chorava, mais reclamava.

Até que, furiosa, se levantou e, em pé na cama, berrou:

- COVARDE!!!! É isso que Você é!!! Um covarde!!!! Não tem coragem o suficiente para me encarar. Não me responde porque sabe que está errado! Não sou eu que mereço passar por isso. COVARDE! COVARDE!!

Parou de berrar quando a campainha tocou. Seu sangue ficou gelado. Eram duas da manhã e sua gritaria tinha, com certeza, despertado algum vizinho que resolveu tirar satisfações. Ela, então, enxugou as lágrimas, passou no banheiro para arrumar um pouco os cabelos, enxugar o suor da testa e vestir um robe. Desceu as escadas, atravessou a sala, entrou no hall e abriu a janelinha de sua porta.

- Pois não? Acho que não conheço o senhor…

Ele, que estava de costas, se virou para Angela. Era um senhor negro, de terno cinza claro, gravata borboleta azul com bolinhas vermelhas, segurando uma bengala na mão direita. Com a mão esquerda, tirou seu chapéu e Angela percebeu sua barba, já embranquecida pelo tempo.

Ele sorriu.

Então, Deus apareceu para Angela.

Então, Deus apareceu para Angela.

Angela estava prestes a se deitar. Estava deprimida. Tinha brigado com o namorado, estava com problemas no emprego e tinha certeza de que começava a ficar resfriada. Quando isso acontece, geralmente as pessoas exageram nas reclamações. Que merda de vida, de dia do cão, inferno, só acontece comigo, será que é provação?

O sono não vem. Os problemas, sempre eles, insistem em nos assombrar, especialmente quando sabemos que não pensar neles e descansar um pouco a cabeça pode ser o primeiro passo para começar a resolvê-los. Não era diferente com Angela naquela noite quente de verão. O calor e o pensamento insistindo em ir para o lado errado do cérebro (aquele que quer atormentar, e não o que quer descansar) impediam qualquer vestígio de sono em seu corpo.

Começou a usar vários artifícios, que aprendeu com amigos, parentes, TV, para tentar dormir. Desde o tradicional contar carneirinhos (sempre parava no segundo ou terceiro) até se imaginar fazendo alguma coisa impossível para ela, como voar, ou que nunca teria coragem de fazer, como desfilar nua em Copacabana, domingo de tarde. Nada funcionava. Resolveu, então, fazer algo que há muito não fazia, recurso maior, usado apenas nos casos de extremo desespero. Começou a rezar.

Mas mesmo rezar estava complicado. De repente, as orações, aprendidas longos anos atrás, com sua avó, com sua mãe e nas aulas de catecismo de sábado a tarde, começaram a perder o foco. Foram, lentamente, se transformando em uma conversa com Deus. Uma boa discussão, seria melhor dizer. Angela começou a botar-Lhe toda a culpa por seu sofrimento. Por que, ela perguntava, por que eu? É castigo? Provação? O que eu Te fiz? Mas Ele continuava calado. Angela começou a chorar copiosamente, sozinha em sua casa, no escuro de seu quarto. Lágrimas se misturavam ao suor e, quanto mais chorava, mais reclamava.

Até que, furiosa, se levantou e, em pé na cama, berrou:

- COVARDE!!!! É isso que Você é!!! Um covarde!!!! Não tem coragem o suficiente para me encarar. Não me responde porque sabe que está errado! Não sou eu que mereço passar por isso. COVARDE! COVARDE!!

Parou de berrar quando a campainha tocou. Seu sangue ficou gelado. Eram duas da manhã e sua gritaria tinha, com certeza, despertado algum vizinho que resolveu tirar satisfações. Ela, então, enxugou as lágrimas, passou no banheiro para arrumar um pouco os cabelos, enxugar o suor da testa e vestir um robe. Desceu as escadas, atravessou a sala, entrou no hall e abriu a janelinha de sua porta.

- Pois não? Acho que não conheço o senhor…

Ele, que estava de costas, se virou para Angela. Era um senhor negro, de terno cinza claro, gravata borboleta azul com bolinhas vermelhas, segurando uma bengala na mão direita. Com a mão esquerda, tirou seu chapéu e Angela percebeu sua barba, já embranquecida pelo tempo.

Ele sorriu.

Então, Deus apareceu para Angela.

Acordou sozinho. Olhou em volta, tentando descobrir porque.

Tinha acostumado com a companhia dela. Seu cheiro, seu toque, o suave alarido do seu sono. Se acostumara a despertar com ela o observando, a cabeça apoiada na mão, o sorriso nos lábios, a camisola escorregando corpo abaixo, revelando detalhes de seu corpo que ele não se cansava de decorar.

A caminho do chuveiro, as pernas pareciam pesar mais que todo o resto do corpo. A vontade de levantar e encarar o mundo praticamente não existia, mas o senso de responsabilidade que tinha adquirido depois de começar a trabalhar, aos 16 anos de idade, o empurrava para o chuveiro.

O café da manhã, antes o momento da primeira conversa do dia, era agora uma agonia silenciosa, que pesava em sua cabeça e em sua consciência. A dúvida, do que fizera para merecer tamanha solidão, atormentava mais que a fome matinal. A vida estava totalmente sem cor, sem brilho, sem sabor. Como seu café da manhã.

Sair, trabalhar, conversar. Obrigações sociais que poderiam muito bem ser esquecidas. A saudade era imensa.

Toca o telefone. Alô? Ela. E agora? Como demonstrar o que sente? Como pedir para que ela volte? Como dizer que precisa da companhia, do cheiro, do alarido? Como dizer que acordar sozinho é tortura maior que ele poderia suportar?

O que você quer? Seco. Impessoal. Tentando parecer forte. Errado – pensa. Mas o orgulho parece maior que a dor. Não conversam muito. Só acertam detalhes para que as coisas dela saiam do apartamento.

Ela desliga. Não consegue esquecer que esse jeito impessoal e frio dele os afastou. Que nem todo calor e amor que ela deu o fez mais quente, mais apaixonado. Acha que a culpa é dela, que não soube fazê-lo amá-la.

Ele desliga. Não entende como não consegue pedir para que ela volte. Não sabe como não pôde retribuir todo o amor que recebeu. Acha que a culpa é dele, que nunca soube, e talvez nunca saiba, como amar alguém.

O dia acaba. Desmonta na cama, remoendo a própria culpa. O sono custa a chegar.

Acordou sozinho. Olhou em volta, tentando descobrir porque.

Acordou sozinho. Olhou em volta, tentando descobrir porque.

Tinha acostumado com a companhia dela. Seu cheiro, seu toque, o suave alarido do seu sono. Se acostumara a despertar com ela o observando, a cabeça apoiada na mão, o sorriso nos lábios, a camisola escorregando corpo abaixo, revelando detalhes de seu corpo que ele não se cansava de decorar.

A caminho do chuveiro, as pernas pareciam pesar mais que todo o resto do corpo. A vontade de levantar e encarar o mundo praticamente não existia, mas o senso de responsabilidade que tinha adquirido depois de começar a trabalhar, aos 16 anos de idade, o empurrava para o chuveiro.

O café da manhã, antes o momento da primeira conversa do dia, era agora uma agonia silenciosa, que pesava em sua cabeça e em sua consciência. A dúvida, do que fizera para merecer tamanha solidão, atormentava mais que a fome matinal. A vida estava totalmente sem cor, sem brilho, sem sabor. Como seu café da manhã.

Sair, trabalhar, conversar. Obrigações sociais que poderiam muito bem ser esquecidas. A saudade era imensa.

Toca o telefone. Alô? Ela. E agora? Como demonstrar o que sente? Como pedir para que ela volte? Como dizer que precisa da companhia, do cheiro, do alarido? Como dizer que acordar sozinho é tortura maior que ele poderia suportar?

O que você quer? Seco. Impessoal. Tentando parecer forte. Errado – pensa. Mas o orgulho parece maior que a dor. Não conversam muito. Só acertam detalhes para que as coisas dela saiam do apartamento.

Ela desliga. Não consegue esquecer que esse jeito impessoal e frio dele os afastou. Que nem todo calor e amor que ela deu o fez mais quente, mais apaixonado. Acha que a culpa é dela, que não soube fazê-lo amá-la.

Ele desliga. Não entende como não consegue pedir para que ela volte. Não sabe como não pôde retribuir todo o amor que recebeu. Acha que a culpa é dele, que nunca soube, e talvez nunca saiba, como amar alguém.

O dia acaba. Desmonta na cama, remoendo a própria culpa. O sono custa a chegar.

Acordou sozinho. Olhou em volta, tentando descobrir porque.

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