Archive for November 28th, 2009
Já escrevi a crítica do show do AC/DC no Brasil para o portal da Band (que está aqui). Mas queria escrever o que senti aqui, não o que vi, simplesmente.
AC/DC foi a segunda banda que ouvi e gostei, depois que comecei a gostar de rock. A primeira foi Iron Maiden. Por anos achei Angus Young o melhor guitarrista do mundo. Se as músicas são relativamente simples, são também muito poderosas. Riffs como os de Hell’s Bells e Back in Black não são compostos todos os dias por aí. Sem contar que é impossível alguém normal cantar qualquer música da banda. Li um dia uma declaração do Angus dizendo que “Brian Johnson canta como se alguém tivesse jogado um tijolo no pé dele”. É uma ótima definição e o mais interessante é que não seria legal em nenhuma banda, só no AC/DC, mesmo.
Outra coisa é que não dá prá imaginar o AC/DC tocando em um lugar pequeno. É o que se convencionou chamar de “banda de arena”. Suas músicas são feitas para multidões, shows com tiros de canhão, sinos e muita correria.
E ontem, tudo o que quem foi no show esperava, estava lá. Uma superprodução que não se espera de um show de rock, mas de um show pop tipo Madonna ou Michael Jackson. No começo do show, o vídeo de introdução mostra uma animação da banda andando num trem, fazendo merda e o trem perdendo o controle. A última imagem é o trem vindo em direção ao palco e aí o telão parte em dois, entra uma locomotiva de verdade e a banda começa tocando Rock’n'Roll Train, que já tem tudo para ser mais um dos clássicos deles.
Eu nunca tinha visto o Morumbi tão cheio na minha vida, e olha que eu já vi muito show lá. Era um mar de gente usando chifres piscantes, hipnotizados pela presença de Angus e de Brian Johnson em todas as partes do palco e da passarela que ia do palco até o meio do campo. Rock’n'Roll Train e Hell ain’t a bad place to be foram ótimos aperitivos, mas a terceira música do show foi só Back in Black. Para ser ter uma idéia de como foi a participação da galera durante a música, a hora que eles acabaram de tocar Brian Johnson dá uma risadinha, vira para a galera e diz: “Wow, that was cool”.
O show todo foi espetacular, com uma produção que não se vê sempre por aqui. Mas os clássicos foram algo de assustador. Dirty Deeds, The Jack, Thunderstruck faziam o estádio balançar. Aí Brian Johnson vai até o meio do campo pela passarela, olha para o palco e o sino começa a descer. Enquanto o povo faz muito barulho, ele dá um pique invejável para quem tem 62 anos, se pendura na corrente do badalo como um tarzan e enquanto ele está lá, tocando o sino, começa Hell’s Bells.
A sensação era a de estar em um DVD dos caras. Era tudo que se esperava do show. Depois de quase duas horas, o final de Let There Be Rock é o solo de Angus Young. Cara, ficar sozinho, tocado guitarra para 70 mil pessoas, a 10 metros de altura no meio do estádio lotado é para quem tem culhão. Ou 36 anos de carreira nas costas. E o cara tem os dois.
Acaba o solo, a música, se despedem, mas tudo mundo sabe que não era prá valer. Ainda tem o bis, com Highway to Hell e For Those About to Rock (We Salute You). As duas são emocionantes, ainda mais com a salva de tiros de canhão na última, mas o ponto alto do show, na minha opinião, foi You Shook Me All Night Long. Foi a música mais cantada e cantada mais alto na noite. Foi um negócio arrepiante, coisa de doido, mesmo. E ainda foi cantada adaptando a letra, já que o verso ficou “knocking me out with her brazilian thighs”.
Depois que a banda sai do palco, ainda tem uma queima de fogos, como se para lembrar a gente que não foi só um show de rock. Foi um evento, e um senhor evento.
Fazendo uma conta besta no fim do show, 70 mil pessoas a uma média de R$ 200 por cabeça, dá R$ 14 milhões por um show. É muito? Claro que é, mas acho que a produção leva tranquilamente metade dessa grana. Imagina quanto custa carregar essa infra toda por aí? Com locomotiva, sino, canhões e tudo mais.
Poucas bandas de hoje se preocupam com a produção de um show como eles. Dos que eu já vi, acho que só Iron Maiden e o Kiss chegaram perto. Mas o fator de diversão do AC/DC eu achei muito melhor. Me atrevo a dizer que é o melhor show que eu já assisti ao vivo na minha vida.


