Heaven
Ele entrou e olhou em volta, procurando algum conhecido. Nunca foi de se acanhar, mas era sempre mais fácil começar uma conversa com um conhecido, para depois expandir sua roda de amizades.
A tática era simples. Infalível. Começava sério. Estava sempre bem informado sobre algum assunto importante. Não deixava de mostrar sua opinião, não se intimidava. Conforme a conversa ia evoluindo, ia identificando os pontos “vulneráveis” de seu interlocutor. O time que torcia, a tendência política, o tipo de mulher que gostava, sua marca preferida de cerveja… Em alguns minutos, era íntimo. Parecia que conhecia, e era conhecido, há muitos anos.A seriedade ia rareando. Uma piada aqui, uma tirada de sarro ali, o gelo ia sendo quebrado e o grau de intimidade ia aumentando exponencialmente. As risadas, a cerveja gelada… Amigos. De longa data. Apesar de serem apresentados agora mesmo.
Agora não era mais parte de uma rodinha de amigos. Era parte de uma grande festa. Já era a figura mais conhecida da imensa sala em que se encontrava. Percebia alguma coisa diferente. Não sabia se era o clima, se eram as pessoas, mas quando a preocupação passou correndo por seus olhos, alguém lhe deu um pandeiro, seu melhor amigo, cúmplice, aliado. A preocupação sumiu e o samba, paixão de uma vida, apareceu.
A cantoria voou longe, por horas, dias, meses que pareceram minutos. E vai durar para sempre.
Enquanto não nos encontramos para cantar juntos, lembro com carinho das cantorias passadas…
E choro.

