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Então, Deus apareceu para Angela.

Angela estava prestes a se deitar. Estava deprimida. Tinha brigado com o namorado, estava com problemas no emprego e tinha certeza de que começava a ficar resfriada. Quando isso acontece, geralmente as pessoas exageram nas reclamações. Que merda de vida, de dia do cão, inferno, só acontece comigo, será que é provação?

O sono não vem. Os problemas, sempre eles, insistem em nos assombrar, especialmente quando sabemos que não pensar neles e descansar um pouco a cabeça pode ser o primeiro passo para começar a resolvê-los. Não era diferente com Angela naquela noite quente de verão. O calor e o pensamento insistindo em ir para o lado errado do cérebro (aquele que quer atormentar, e não o que quer descansar) impediam qualquer vestígio de sono em seu corpo.

Começou a usar vários artifícios, que aprendeu com amigos, parentes, TV, para tentar dormir. Desde o tradicional contar carneirinhos (sempre parava no segundo ou terceiro) até se imaginar fazendo alguma coisa impossível para ela, como voar, ou que nunca teria coragem de fazer, como desfilar nua em Copacabana, domingo de tarde. Nada funcionava. Resolveu, então, fazer algo que há muito não fazia, recurso maior, usado apenas nos casos de extremo desespero. Começou a rezar.

Mas mesmo rezar estava complicado. De repente, as orações, aprendidas longos anos atrás, com sua avó, com sua mãe e nas aulas de catecismo de sábado a tarde, começaram a perder o foco. Foram, lentamente, se transformando em uma conversa com Deus. Uma boa discussão, seria melhor dizer. Angela começou a botar-Lhe toda a culpa por seu sofrimento. Por que, ela perguntava, por que eu? É castigo? Provação? O que eu Te fiz? Mas Ele continuava calado. Angela começou a chorar copiosamente, sozinha em sua casa, no escuro de seu quarto. Lágrimas se misturavam ao suor e, quanto mais chorava, mais reclamava.

Até que, furiosa, se levantou e, em pé na cama, berrou:

- COVARDE!!!! É isso que Você é!!! Um covarde!!!! Não tem coragem o suficiente para me encarar. Não me responde porque sabe que está errado! Não sou eu que mereço passar por isso. COVARDE! COVARDE!!

Parou de berrar quando a campainha tocou. Seu sangue ficou gelado. Eram duas da manhã e sua gritaria tinha, com certeza, despertado algum vizinho que resolveu tirar satisfações. Ela, então, enxugou as lágrimas, passou no banheiro para arrumar um pouco os cabelos, enxugar o suor da testa e vestir um robe. Desceu as escadas, atravessou a sala, entrou no hall e abriu a janelinha de sua porta.

- Pois não? Acho que não conheço o senhor…

Ele, que estava de costas, se virou para Angela. Era um senhor negro, de terno cinza claro, gravata borboleta azul com bolinhas vermelhas, segurando uma bengala na mão direita. Com a mão esquerda, tirou seu chapéu e Angela percebeu sua barba, já embranquecida pelo tempo.

Ele sorriu.

Então, Deus apareceu para Angela.

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