Acordou sozinho. Olhou em volta, tentando descobrir porque.
Tinha acostumado com a companhia dela. Seu cheiro, seu toque, o suave alarido do seu sono. Se acostumara a despertar com ela o observando, a cabeça apoiada na mão, o sorriso nos lábios, a camisola escorregando corpo abaixo, revelando detalhes de seu corpo que ele não se cansava de decorar.
A caminho do chuveiro, as pernas pareciam pesar mais que todo o resto do corpo. A vontade de levantar e encarar o mundo praticamente não existia, mas o senso de responsabilidade que tinha adquirido depois de começar a trabalhar, aos 16 anos de idade, o empurrava para o chuveiro.
O café da manhã, antes o momento da primeira conversa do dia, era agora uma agonia silenciosa, que pesava em sua cabeça e em sua consciência. A dúvida, do que fizera para merecer tamanha solidão, atormentava mais que a fome matinal. A vida estava totalmente sem cor, sem brilho, sem sabor. Como seu café da manhã.
Sair, trabalhar, conversar. Obrigações sociais que poderiam muito bem ser esquecidas. A saudade era imensa.
Toca o telefone. Alô? Ela. E agora? Como demonstrar o que sente? Como pedir para que ela volte? Como dizer que precisa da companhia, do cheiro, do alarido? Como dizer que acordar sozinho é tortura maior que ele poderia suportar?
O que você quer? Seco. Impessoal. Tentando parecer forte. Errado – pensa. Mas o orgulho parece maior que a dor. Não conversam muito. Só acertam detalhes para que as coisas dela saiam do apartamento.
Ela desliga. Não consegue esquecer que esse jeito impessoal e frio dele os afastou. Que nem todo calor e amor que ela deu o fez mais quente, mais apaixonado. Acha que a culpa é dela, que não soube fazê-lo amá-la.
Ele desliga. Não entende como não consegue pedir para que ela volte. Não sabe como não pôde retribuir todo o amor que recebeu. Acha que a culpa é dele, que nunca soube, e talvez nunca saiba, como amar alguém.
O dia acaba. Desmonta na cama, remoendo a própria culpa. O sono custa a chegar.
Acordou sozinho. Olhou em volta, tentando descobrir porque.

