O dia começou muito bonito. Um calorão, daqueles típicos do verão tropical. No céu não se via nenhuma nuvem. Prá quem gosta de calor e verão, como eu gosto, não podia ser melhor. Quer dizer, podia: eu bem que poderia estar de férias, ou matando aula. Mesmo sendo um aluno não muito aplicado, e matar aula (ou gazetear, diriam os mais velhos) era algo corriqueiro, aquele dia não considerei essa possibilidade. Estava determinado a acabar logo aquele ano, afinal, era o último de colégio. Daí para frente estaria livre para curtir a vida. Ou ir para a faculdade, que segundo todos os meus amigos mais velhos, era mais ou menos a mesma coisa.
Quando cheguei ao colégio, perto de sete horas da manhã, o calor já era algo em torno de 29 graus, o que mostrava o que viria por aí. Imaginei a saída ao meio dia, como seria. Praticamente o inferno na terra. No que dizia respeito a temperatura, é claro.
As primeiras aulas foram um sufoco. Literalmente. Além de não conseguir enteder a lógica que existe em química, a sala de aula parecia uma sauna. O pobre do ventilador, apelidado pela turma de Águia, numa alusão ao helicóptero que dava nome a uma famosa série de TV na época, o Águia de Fogo, só fazia distribuir o calor pela sala de maneira mais homogênea.
Intervalo. Uma coca gelada, uma coxinha da cantina, uma piada para os amigos, uma cantada na Marcinha, que resistia a elas bravamente pelos 3 anos que passamos juntos no colégio e a volta agozinante para a sauna de aula. Digo, sala de aula.
Quarenta e cinco minutos de literatura e, no meio da declamação de um poema escrito por ela, Cíntia, uma japonesinha daquelas bem quietinhas, tímidas, até, começou a empolgar. Para dar mais dramaticidade ao poema, começou a encená-lo. O poema, tenho certeza, nunca lembrarei na vida, pois naquele momento eu estava totalmente surdo. Surdo não é a palavra. Eu ouvia. Mas não entendia patavina. Só sei que ela ia tirando, aparentemente sem noção do que fazia, as peças de sua roupa. Uma a uma, lentamente, e deixando onde caíam. Ao terminar a declamação, estaria totalmente nua se não fosse pelo par de tênis que usava e aparentemente não atinava a isso. Calmamente perguntou a nós, uma platéia totalmente atônita, o que tínhamos achado.
Depois do silência espectral que se seguiu por uns quinze ou vinte segundos, a única coisa que consegui dizer foi:
- Bonito, o seu tênis!

